Nasci com um rosto que impressiona todos que me veem — ou pelo menos, é assim que o descrevem 😶
Alguns olham por demasiado tempo, outros desviam rapidamente o olhar, fingindo não ter notado. Desde as minhas primeiras memórias, percebi que a minha aparência entrava na sala antes de mim. As pessoas sussurravam, adivinhavam, imaginavam histórias sobre mim, sem nunca perguntar quem eu realmente era. Aprendi cedo o peso do silêncio.
Ao crescer, percebi que a curiosidade raramente é inocente 👀
Cada olhar carregava perguntas, algumas cheias de admiração, outras de desconforto. Dominei a arte de ler rostos antes de falarem, sentindo o julgamento antes que as palavras fossem formadas. O que a maioria das pessoas não sabe é o quão exaustivo é ser visto, mas não compreendido, ser reconhecido sem nunca ser conhecido.
Houve momentos em que quis esconder-me, desaparecer numa multidão onde ninguém parasse para olhar 🌫️
Mas a vida não me deu essa opção. Em vez disso, empurrou-me para a frente, forçando-me a enfrentar não apenas as reações do mundo, mas os meus próprios medos, dúvidas e batalhas silenciosas. Cada dia tornou-se um teste de força que nunca pedi, mas que tive de passar.
Hoje, a minha vida não se parece nada com o que as pessoas imaginam 😶😶

Estou a contar a minha própria história agora, não porque seja fácil, mas porque é verdadeira 🌅
Houve uma manhã em que a minha vida se partiu silenciosamente em dois. Acordei acreditando que tudo estava normal, sem saber que a pessoa que eu tinha sido até então já se estava a perder. Nada doía ainda, mas algo dentro de mim sabia que estava prestes a perder a versão de mim em quem confiava.
Quando me olhei ao espelho, não gritei nem chorei 😶
Simplesmente fiquei a olhar. O rosto que me olhava era meu, e, ainda assim, não era. Inclinei-me mais perto, procurando algo familiar, algo estável, mas até o meu próprio sorriso parecia estranho. Naquele momento, percebi que a minha aparência tinha mudado de forma irreversível.

No hospital, os médicos falavam sobre a minha condição, mas as suas vozes pareciam distantes 🏥
Explicaram o que estava a acontecer, o que poderia melhorar e o que talvez não. Assenti, fingindo compreender, enquanto a minha mente repetia a mesma frase: o meu rosto nunca mais será o mesmo. Esse pensamento instalou-se dentro de mim como um eco permanente.
Voltar para casa foi mais difícil do que ficar lá 🚗
Cada reflexo me lembrava do que tinha perdido. Evitava contacto visual com estranhos, convencida de que podiam ver o meu medo tão claramente quanto eu o sentia. Nunca imaginei que o meu próprio rosto poderia fazer-me sentir exposta, vulnerável e insegura.
Os dias transformaram-se em semanas, e comecei lentamente a desaparecer 🚪
Deixei de frequentar encontros. Evitava fotos. Até abrir acidentalmente a câmara do telefone me causava pânico. A minha vida dividiu-se em “antes” e “depois”, e no “depois” sentia-me um substituto, não o verdadeiro eu.

A minha mãe foi a única que permaneceu perto 🤍
Ela sentou-se ao meu lado numa tarde e tocou suavemente no meu cabelo, tal como fazia quando eu era criança. Disse-me que eu continuava a mesma pessoa, que o meu valor não tinha mudado. Quis acreditar nela, mas naquele momento as suas palavras não me chegavam.
À noite, o silêncio tornou-se insuportável 🌃
Sentei-me junto à janela, observando as luzes da cidade, perguntando-me quantas pessoas carregam dores de que nunca falam. Foi então que admiti algo a mim mesma pela primeira vez: eu tinha medo não da doença, mas de perder completamente a mim mesma.

Numa noite, forcei-me a ir ao parque 🌿
As pessoas olhavam para mim, e eu sentia a sua curiosidade, mas não desvie o olhar. Fiquei parada, respirei fundo e disse a mim mesma que estar viva já era uma vitória. Pela primeira vez em meses, senti uma pequena faísca de força.
Foi então que uma menina pequena parou à minha frente 👧
Ela olhou para mim calmamente, sem medo ou julgamento. Depois sorriu e disse: “És muito bonita.” As suas palavras surpreenderam-me, não porque fossem gentis, mas porque eram honestas.

Algo mudou dentro de mim naquele momento ✨
Percebi que tinha medido o meu valor pelos olhos dos outros, esquecendo que o meu valor sempre me pertenceu. Aquela criança não viu o que eu odiava. Ela viu o que eu tinha esquecido.
A partir desse dia, comecei a reconstruir a minha vida, lentamente 📖
Voltei a escrever. Permiti-me ser vista. Parei de me esconder de espelhos, de câmaras, de pessoas. Aprendi que a beleza não vive na simetria, mas na resiliência.
Hoje, quando olho para o meu reflexo, nem sempre gosto do que vejo 🌈
Mas reconheço a força nos meus olhos. A minha história já não é sobre perda. É sobre sobrevivência, transformação e coragem para continuar. A minha aparência mudou, mas reencontrei-me — e essa continua a ser a maior vitória da minha vida.